sábado, 15 de setembro de 2018



Do outro lado da linha

"Alô - atende o homem.
- Posso falar com D. Sonia? - perguntou a adolescente que ligara para o telefone celular da mãe, já estranhando não ouvir sua voz.
- D. Sonia acabou de falecer..."

A menina sentiu uma pontada no peito com o golpe da notícia assim, à queima roupa. Desligou, de impulso, o telefone. Não queria ouvir mais. Juntou as poucas forças que lhe restavam para telefonar à irmã mais velha antes de cair inerte no sofá.

- Carol, um homem falou que mamãe morreu.
- Quê? Como? - perguntava a voz trêmula de Carol
- Vem pra cá - gemeu a caçula.
- Estou indo.

Os minutos antes da chegada da primogênita à casa da mãe pareciam séculos a ambas.
Como moram próximas, Carol fez o percurso a pé e acelerava o passo, descompassado pela agonia que sentia em imaginar a mãe morta.

Finalmente chegou à casa e, ansiosa, quis saber da irmã o que acontecera. Cris, com muita dificuldade, contou que telefonara ao celular da mãe e uma voz masculina lhe dera a notícia.

- E você não perguntou mais nada?

Não, Cris não perguntou mais nada. Não queria confirmar. Não suportaria.

Não choravam. O choque as desnorteara.
Enquanto Cris se deixava ficar paralisada no sofá, Carol telefonava a outros membros da família para conseguir notícias. Ninguém atendia.

A falta de contato lhes sugeria que era verdadeira a notícia e que os familiares estariam envolvidos com providências sobre a morte da mãe. As meninas reagiam diferente. Cris se deixara ficar abatida no sofá e Carol  buscava notícias.

O tempo ia passando e do telefone fixo não vinha qualquer informação. A falta de contatos estava desesperadora. Nem conseguiam coragem para tornar a telefonar ao celular da mãe. 

Onde estariam todos?

Os olhos da caçula vagueavam pelo cômodo. De repente, o olhar cai na mesa de centro da sala e ela grita:

- Carol! Olha isto!

O objeto para onde apontava estivera ali o tempo todo mas o desespero não as deixara ver.
Jogado sobre a mesinha de centro estava o aparelho celular da mãe.

Compreenderam que a chamada telefônica de Cris não fora para a mãe e que foram vítimas de um trote cruel.

Então as explosões de emoções puderam vir à tona. As irmãs puseram-se a pular a gritar a chorar de alegria e alívio. Era uma ressurreição milagrosa para as filhas que haviam rezado e feito promessas para que não fosse verdadeira a triste notícia.

Ansiosas, olharam à janela no justo momento em que Sonia chegava ao prédio. O sofrimento foi substituído por súbita felicidade. Desejavam abraçá-la, senti-la. E gritaram:

- Mãe, sobe logo.

Sonia não entendeu porque sua chegada em casa foi efusivamente festejada com abraços carinhosos e declarações de amor. Alegre e surpresa perguntava o que acontecera.

- Onde você estava, mãe? Perguntavam as meninas.

Sem saber da agonia pela qual as filhas passaram, respondeu bem humorada:

- No cabeleireiro, ora!


Suely Domingues Canero





domingo, 9 de setembro de 2018

Procura-se na rede 


No ano de 2004 um site da internet deixou os pais preocupados. Nascia uma rede social e a garotada estava animada com a possibilidade de contatar amigos e fazer novas amizades através do tal site que virou "febre" : o Orkut.

O Orkut era filiado ao Google e, embora o alvo fosse os Estados Unidos, a maioria dos usuários eram do Brasil e da Índia.

Curiosa, em dezembro de 2005, resolvi fazer parte daquela rede. Assim como os jovens, também buscava contatos de antigos amigos de escola dos quais sentia saudade.

Em fevereiro de 2006 já possuía um cadastro grande de colegas do curso ginasial, hoje fundamental II, e, posteriormente, em dezembro de 2008, já começava a recuperar também contatos dos amigos da Universidade Rural RJ que resultou em grande encontro em dezembro de 2009. Acabei apaixonando-me pelo antes misterioso site.

No Orkut se podia criar comunidades virtuais, ambientes particulares para usuários que tinham interesses comuns. Então, em 2013, na comunidade dos moradores da Gávea, deparei-me com a postagem de uma menina, Dani, que me chamou atenção.

Dani procurava pela avó, Francisca, mãe de seu pai, que não a conhecia, pois se separaram quando ele ainda bebê e, acrescentou, naquela época a avó trabalhara em uma pensão naquele bairro.

Sensibilizei-me e, querendo ajudar a menina, parti a perguntar aos comerciantes mais antigos se conheciam D. Francisca. Mas não conheciam a senhora e, menos ainda, a pensão.

Dani dizia na postagem que morava em Alagoas. Fazia referência também ao restante da família que, segundo sabia, morava na Paraíba em uma fazenda chamada Boqueirão.

Como minha pesquisa na Gávea não teve sucesso e como Dani colocara o nome da avó por inteiro, resolvi consultar a internet mesmo sabendo que a possibilidade de êxito era mínima.

Para minha surpresa, entretanto, de imediato encontrei uma nota onde outra neta procurava, a pedido da avó, a família que morava em Boqueirão.

"Minha avó, Francisca de tal, procura sua família da Fazenda Boqueirão, Paraíba, de onde saiu jovem deixando lá seus pais e irmãos. Moramos na Bahia. Quem tiver informações favor enviar mensagem para o e.mail tal."

Era coincidência demais para não se tratar da mesma pessoa. Fiquei muito animada e, com essas informações, tomei duas providências: A primeira foi informar Dani do e.mail da suposta prima para que pudesse colocar o pai em contato com a suposta avó.

Mas a segunda providência, não contei a Dani.

Escrevi à Paraíba contando da possibilidade de ter encontrado D. Francisca, parenta deles que não viam há muito tempo. No envelope escrevi como destinatários todos os nomes divulgados pela neta, portadora do pedido da avó na internet. Depois escrevi o nome da fazenda, da cidade e do estado.

Aguardei o telefonema e guardei o segredo. Na carta enviara meu número de telefone.

Enquanto isso, Dani entrou em contato com a avó através do e.mail da prima. Confirmaram que D. Francisca era mesmo sua avó verdadeira. Contava-me da felicidade do pai em re-encontrar a mãe, da reunião que a família teve quando sua avó veio da Bahia a Alagoas passar uns dias com eles. Até enviou-me fotos. Essas duas famílias não sabiam que ainda lhes aguardavam mais dias felizes...

Demorou um tempo antes que eu recebesse telefonema da Paraíba, mas quando veio foi uma explosão. Do outro lado da linha vozes eufóricas queriam falar comigo. A custo consegui explicar que eu não era da família e que somente estava querendo ajudar a juntar os parentes. Quando me deram fôlego, consegui passar-lhes o telefone da Dani. 

A suposta avó já não era mais uma suposição. Era a certeza. 
E podiam comemorar junto às irmãs de D. Francisca, lá da Paraíba, de onde saíra tão novinha e não mais voltara.

Por algum tempo Dani ficou minha amiga no Orkut, porém o furacão Facebook chegou ao país estourando sucesso e tivemos que dar adeus, em 30 de setembro de 2014, ao site que tantas coisas boas trouxe à minha vida. Despedi-me dele com melancolia.  E tive que me render ao novo site de relacionamentos.

O nome Orkut é originado no projetista chefe, Orkut Büyükkökten, engenheiro do Google.
Face book foi colocado no ar também em  2004
Datas pesquisadas na internet

Suely Domingues Canero






domingo, 2 de setembro de 2018



Coincidências existem?                        (Da série: Parece cena de filme)

Às vezes vemos uma cena de filme e pensamos: "Ah, só mesmo em filme acontecem coincidências dessas."

Mas a realidade pode nos pregar peças e trazer-nos coincidências reais iguais as irreais cenas de filmes.

Morando na Gávea, tinha o privilégio de ir ao trabalho em um ônibus que me atendia bem, pois me deixava na Av. República do Paraguai, bem próximo à entrada da empresa onde trabalhava. 

Certo dia de calor intenso, coletivo sem ar condicionado, a viagem vinha igual aos outros dias.
Os passageiros usavam envelopes, jornais, qualquer coisa que service de abano.

À altura do hospital Instituto Fernandes Figueiras, no Flamengo, entrou uma senhora com um bebê ao colo. Era uma menina. Poucos segundos após a partida, a senhora começou a gritar desesperadamente:

- Minha filha! Minha filha!

Olhando para a menina vi que estava roxa. Todos gritavam ao motorista:

- Para! Para!

Até que o motorista entendesse o que acontecia, já havia passado uma boa distância do hospital onde a senhora subira ao ônibus. Finalmente parou o veículo e a passageira, desesperada, desceu à calçada.

Eu pensava que aquela não era a coisa certa a fazer. Como aquela pobre mãe faria para retornar ao hospital? Como superaria aquela distância? 

Instintivamente olhei pela janela e vi que passaria por nós uma patrulhinha da polícia.
Coloquei meio corpo fora da janela e fiz sinal para que parassem.
De imediato os policiais saíram do carro, armas em punho. Olharam para mim como a pedir mais informações. Só consegui apontar para a dianteira do ônibus, pois a aflita mãe já descera em busca do nada.

Em poucos segundos os policiais colocaram-nas na viatura e, atravessando o canteiro central da avenida, partiu de volta ao hospital, a toda velocidade.

Nunca soube o que aconteceu àquela menininha, mas o providencial aparecimento daquele carro de polícia naquele exato instante e o meu impulso de rápida intervenção dão-me a esperança de que tenha recebido a dádiva da vida.


Suely Domingues Canero

domingo, 26 de agosto de 2018



Querida Arlinda

Arlinda era uma negra forte. Morava na favela e era empregada doméstica. 
Excelente cozinheira e ótima no trato com crianças.
Ganhava pouco e seu lar, podia-se dizer, era o emprego, pois as folgas eram quinzenais.

Quando, sem estar casada, emprenhou, contou à patroa. Não sabia se seria aceita com uma criança. Mas foi.

Empregada e patroa eram jovens. O filho de Arlinda, o quarto menino a chegar a casa, foi bem recebido.

A vida seguia. Arlinda tomou amor pelas crianças. O filho, tratado igual aos dos patrões. 

Arlinda amava aquela família. Incansável, servia sozinha grandes jantares nos dias comemorativos. Tinha ciúme de sua cozinha. 

Era a rainha da casa, depois da patroa. As outras empregadas que se comportassem,
senão lhes aplicava descomposturas.

As crianças passaram pela adolescência e ficaram adultas. Cresceram amando Arlinda e 
recebendo seu afeto. Vieram os netos. O tempo passando e ela ali permanecendo. A patroa perdeu um filho em acidente e Arlinda perdeu o seu para doença.

O chefe da família faleceu e os dois meninos da patroa casaram-se e saíram de casa.

Ficaram as duas sozinhas no casarão, passados 50 anos. Dormem no mesmo quarto para se ajudarem.

Duas velhas rabugentas que brigam. 
A patroa é braba, mas Arlinda a ama. Irmãs! Almas gêmeas!

Mais uma briga... A negra sai da sala e vai para seu quarto cantar. E se deixa ficar um bom tempo, de pé, apoiada na cômoda.

O criado vem chamá-la para o almoço. Uma lágrima rola em sua face, mas abre um sorriso.

Com dificuldade, as duas, patroa e a agora amiga, apoiadas nas bengalas, sentam-se à mesa.

A patroa percebe o olhar amoroso de Arlinda e lhe sorri.
E tudo fica igual porque o amor, de cinquenta anos, mostra-se mais forte. 

E amanhã... Amanhã será só mais um dia.



(Homenagem a uma mulher que muito admiro pela fibra e pela doçura)
Suely Domingues Canero




domingo, 19 de agosto de 2018

Gente amiga,
Hoje não postarei texto meu. Postarei a letra de uma música gravada por Luan Santana.
Essa letra me toca muito e fico admirada de como um rapaz tão jovem conseguiu inspiração para gravá-la.

"Te Esperando

Mesmo que você não caia na minha cantada
Mesmo que você conheça outro cara
Na fila de um banco
Um tal de Fernando
Um lance assim,
Sem graça

Mesmo que vocês fiquem sem se gostar
Mesmo que vocês casem sem se amar
E depois de seis meses
Um olhe pro outro
E aí, pois é,
Sei lá

Mesmo que você suporte este casamento
Por causa dos filhos, por muito tempo
Dez, vinte, trinta anos
Até se assustar com os seus cabelos brancos

Um dia vai sentar numa cadeira de balanço
Vai lembrar do tempo em que tinha vinte anos
Vai lembrar de mim e se perguntar
Por onde esse cara deve estar?

E eu vou estar
Te esperando
Nem que já esteja velhinha gagá
Com noventa, viúva, sozinha
Não vou me importar
Vou ligar, te chamar pra sair,
Namorar no sofá
Nem que seja além dessa vida
Eu vou estar
Te esperando"

Autor: Bruno Kaliman

sábado, 11 de agosto de 2018


Além da Boemia

Já aos treze anos, com a morte repentina do pai, Cesário se viu dividindo a chefia da família, de sete crianças, com a mãe.

Não se sabe em que momento o menino alto e magro transformou-se em um dos homens mais elegantes do país.

Sempre bem vestido, geralmente em ternos de panamá, cabelos rigorosamente penteados com gel fixador, sem um fio fora do lugar, e deliciosamente perfumado. O aroma misturava perfume e cigarro, numa combinação máscula.

Não poderia passar despercebido pelas moçoilas que lhe lançavam suaves suspiros e lânguidos olhares.

Era goalkeeper do time que fundou: o Atília Football Club. Ali conheceu a moça mais bonita que seus olhos já haviam visto; Mercedes, a madrinha do time.
Logo apaixonaram-se e casaram-se.

Mas Cesário era boêmio e Mercedes ciumenta.

As brigas eram constantes. Lágrimas corriam pelas faces da esposa ao lavar as manchas de batom nos colarinhos das camisas do marido.

Cesário queria chegar a casa e sentir na mulher o calor dos braços daquelas que encontrava na rua. Mercedes queria um marido que sentasse com ela à mesa do jantar. E brigavam.

Por seis anos brigaram e fizeram as pazes, antes da separação.
Chegara o fim das explosões, das lágrimas e das juras mentirosas.

Cesário partiu levando tudo que era seu. Menos um casaco, que permaneceu pendurado em um gancho na parede.

Enquanto ali ficou, Mercedes esperou sua volta.

Um dia ele veio, abriu a porta com a própria chave e, sem nada dizer, pegou o casaco e levou-o, saindo de vez do seu caminho.



O texto faz duas referências a duas das músicas temas dos personagens: Brasa – de Lupicínio Rodrigues e Saia do Caminho - de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy.
Foto do time do Atília Football Club
Suely Domingues


domingo, 5 de agosto de 2018

Desafio


Denise caminhava olhando as vitrines da Rua do Ouvidor, no Centro do Rio.
Acabara de almoçar e curtia os minutos que ainda lhe restavam para voltar ao trabalho.

Era moça bonita, de baixa estatura. 
Vaidosa, aproveitou seu reflexo na vitrine para ajeitar os cabelos.

Ao virar-se esbarrou, sem querer, em uma mulher que passava na mesma calçada estreita.

- Desculpe - pediu Denise.

A criatura olhou-a raivosa e passou a agredir verbalmente Denise que ficou muito assustada, pois a tal mulher, de voz rouca e grande porte, cada vez mais se aproximava dela.

- Desculpe - repetiu.

Começou a juntar gente ao redor. Denise olhava em volta para ver se achava uma brecha escapatória.

A mulher aos poucos se aproximava dela, dedo em riste, já cutucando seu colo com o indicador, não se importando com o pedido de desculpas da já quase agredida.

- Por que não olha onde anda? - gritava a grandalhona

O pessoal que assistia a cena nada fazia: parecia divertir-se. O desespero foi tomando conta da baixinha que, já fora de seu juízo, empurrou para longe aquela massa disforme que estava à sua frente. 

A mulher desequilibrou-se e caiu de costas no duro piso.

- Ah! Vou te pegar, sua estúpida! - esbravejava.

Apavorada, Denise aproveitou a situação para furar o bloqueio humano e fugir, sob aplausos.
Quando já estava a dois quarteirões de distância, ouviu as vaias à sua algoz cujos impropérios dava para ouvir ao longe.

- Cadê ela? Ah! se a pego...

Denise estava envergonhada por passar aqueles momentos de alta tensão e, ainda sem saber como, conseguiu forças para caminhar rápido e livrar-se daquele cenário.
.
Ao entrar no escritório seus colegas, que também chegavam do almoço, comentavam o caso que já se havia propagado. Denise, então refeita, entrou no assunto dizendo:

- É, gente, eu soube disso. Parece que uma baixinha derrubou uma gorila.

E os amigos explodiram em gargalhadas da piada, sem imaginar que a colega era uma das personagens que protagonizaram a cena.

Denise disfarçou o sorriso e foi tomar seu posto de trabalho mantendo segredo sobre a aventura pela qual passara.



(este texto é resultado de um desafio proposto em curso livre de português - Com ele homenageio a saudosa amiga Zely)
Suely Domingues Canero.