Do outro lado da linha
"Alô - atende o homem.
- Posso falar com D. Sonia? - perguntou a adolescente que ligara para o telefone celular da mãe, já estranhando não ouvir sua voz.
- D. Sonia acabou de falecer..."
A menina sentiu uma pontada no peito com o golpe da notícia assim, à queima roupa. Desligou, de impulso, o telefone. Não queria ouvir mais. Juntou as poucas forças que lhe restavam para telefonar à irmã mais velha antes de cair inerte no sofá.
- Carol, um homem falou que mamãe morreu.
- Quê? Como? - perguntava a voz trêmula de Carol
- Vem pra cá - gemeu a caçula.
- Estou indo.
Os minutos antes da chegada da primogênita à casa da mãe pareciam séculos a ambas.
Como moram próximas, Carol fez o percurso a pé e acelerava o passo, descompassado pela agonia que sentia em imaginar a mãe morta.
Finalmente chegou à casa e, ansiosa, quis saber da irmã o que acontecera. Cris, com muita dificuldade, contou que telefonara ao celular da mãe e uma voz masculina lhe dera a notícia.
- E você não perguntou mais nada?
Não, Cris não perguntou mais nada. Não queria confirmar. Não suportaria.
Não choravam. O choque as desnorteara.
Enquanto Cris se deixava ficar paralisada no sofá, Carol telefonava a outros membros da família para conseguir notícias. Ninguém atendia.
A falta de contato lhes sugeria que era verdadeira a notícia e que os familiares estariam envolvidos com providências sobre a morte da mãe. As meninas reagiam diferente. Cris se deixara ficar abatida no sofá e Carol buscava notícias.
O tempo ia passando e do telefone fixo não vinha qualquer informação. A falta de contatos estava desesperadora. Nem conseguiam coragem para tornar a telefonar ao celular da mãe.
Onde estariam todos?
Os olhos da caçula vagueavam pelo cômodo. De repente, o olhar cai na mesa de centro da sala e ela grita:
- Carol! Olha isto!
O objeto para onde apontava estivera ali o tempo todo mas o desespero não as deixara ver.
Jogado sobre a mesinha de centro estava o aparelho celular da mãe.
Compreenderam que a chamada telefônica de Cris não fora para a mãe e que foram vítimas de um trote cruel.
Então as explosões de emoções puderam vir à tona. As irmãs puseram-se a pular a gritar a chorar de alegria e alívio. Era uma ressurreição milagrosa para as filhas que haviam rezado e feito promessas para que não fosse verdadeira a triste notícia.
Ansiosas, olharam à janela no justo momento em que Sonia chegava ao prédio. O sofrimento foi substituído por súbita felicidade. Desejavam abraçá-la, senti-la. E gritaram:
- Mãe, sobe logo.
Sonia não entendeu porque sua chegada em casa foi efusivamente festejada com abraços carinhosos e declarações de amor. Alegre e surpresa perguntava o que acontecera.
- Onde você estava, mãe? Perguntavam as meninas.
Sem saber da agonia pela qual as filhas passaram, respondeu bem humorada:
- No cabeleireiro, ora!
Suely Domingues Canero
Suely Domingues Canero
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