Estava eu com uns oito anos e morava em uma rua que começa em uma praça onde está a Igreja de Santo Cristo dos Milagres.
Naquela época havia a tradição católica de se fazer o sinal da cruz às 18 horas; era a "Hora da Ave Maria", momento em que se orava e as crianças pediam a bênção aos adultos. Todos os dias soavam as badaladas dos sinos da igreja indicando o momento consagrado à Virgem Maria.
No número 44, bem em frente à nossa casa, morava sozinha uma senhora discreta que não era de conversas com os vizinhos.
Certo dia começaram a aparecer à janela de sua casa, à tardinha, duas crianças; uma menina de minha idade e um menino menorzinho. Era o único momento do dia em que os víamos. Era-nos um momento muito comovente.
Ali ficavam à espera do badalar dos sinos e, mal começavam os primeiros toques, as duas crianças, à janela, gritavam:
- Abença, vovó. Abença, papai
E, num grito bem alto e prolongado, num grito para ser ouvido nos céus:
- Abença, mamãe
Sim, a mãe fora para o céu. Os pequenos vieram morar com a avó.
Aquele momento sagrado do dia era esperado com ansiedade pelo casalzinho de netos. Momento de soltar do peito o grito de dor e saudade. Momento em que, acreditavam, poderiam conectar-se com a amada mãe, que lhes ouviria e atenderia ao pedido de que os abençoasse.
Suely Domingues Canero
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