domingo, 5 de agosto de 2018

Desafio


Denise caminhava olhando as vitrines da Rua do Ouvidor, no Centro do Rio.
Acabara de almoçar e curtia os minutos que ainda lhe restavam para voltar ao trabalho.

Era moça bonita, de baixa estatura. 
Vaidosa, aproveitou seu reflexo na vitrine para ajeitar os cabelos.

Ao virar-se esbarrou, sem querer, em uma mulher que passava na mesma calçada estreita.

- Desculpe - pediu Denise.

A criatura olhou-a raivosa e passou a agredir verbalmente Denise que ficou muito assustada, pois a tal mulher, de voz rouca e grande porte, cada vez mais se aproximava dela.

- Desculpe - repetiu.

Começou a juntar gente ao redor. Denise olhava em volta para ver se achava uma brecha escapatória.

A mulher aos poucos se aproximava dela, dedo em riste, já cutucando seu colo com o indicador, não se importando com o pedido de desculpas da já quase agredida.

- Por que não olha onde anda? - gritava a grandalhona

O pessoal que assistia a cena nada fazia: parecia divertir-se. O desespero foi tomando conta da baixinha que, já fora de seu juízo, empurrou para longe aquela massa disforme que estava à sua frente. 

A mulher desequilibrou-se e caiu de costas no duro piso.

- Ah! Vou te pegar, sua estúpida! - esbravejava.

Apavorada, Denise aproveitou a situação para furar o bloqueio humano e fugir, sob aplausos.
Quando já estava a dois quarteirões de distância, ouviu as vaias à sua algoz cujos impropérios dava para ouvir ao longe.

- Cadê ela? Ah! se a pego...

Denise estava envergonhada por passar aqueles momentos de alta tensão e, ainda sem saber como, conseguiu forças para caminhar rápido e livrar-se daquele cenário.
.
Ao entrar no escritório seus colegas, que também chegavam do almoço, comentavam o caso que já se havia propagado. Denise, então refeita, entrou no assunto dizendo:

- É, gente, eu soube disso. Parece que uma baixinha derrubou uma gorila.

E os amigos explodiram em gargalhadas da piada, sem imaginar que a colega era uma das personagens que protagonizaram a cena.

Denise disfarçou o sorriso e foi tomar seu posto de trabalho mantendo segredo sobre a aventura pela qual passara.



(este texto é resultado de um desafio proposto em curso livre de português - Com ele homenageio a saudosa amiga Zely)
Suely Domingues Canero.

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