Nos velhos tempos da datilografia o final do texto trazia em caixa alta as iniciais do autor do trabalho e em caixa baixa as iniciais de quem o havia datilografado. Assim surgiu o apelido de minha amiga Zely Oliveira que marcava seu trabalho com suas iniciais.
Zely invadia minha vida a qualquer hora do dia ou da noite para contar um desabafo ou uma cena engraçada que se passasse com ela ou com outra pessoa.
Certa vez ligou-me às duas da madrugada porque se sentia angustiada. Conversamos um pouco e só quando desligou o telefone é que percebeu que não eram somente onze horas, como pensara.
Zely costumava dizer: "Gosto de contar as coisas para você porque só você acha graça". Ríamos de tudo e ríamos tanto que riam também os cobradores dos ônibus que nos levava a Copacabana, no final do expediente de trabalho.
Hoje, como em tantos outros dias, lembrei-me de minha amiga e, mais uma vez, dei boas risadas... sozinha.
Zely era muito desligada. Certa vez, passando pela Rua do Ouvidor viu uma cena onde duas mulheres brigavam por causa do marido de uma delas. Brigavam de se atracar. O público assistia, indiferente, a cena. Zely não contou tempo; segurou a que parecia esposa e desabafou:
- "Não briga, minha filha, eu já passei por isso..." E foi assim que estragou a cena do filme Copacabana me Engana.
Havia coisas que, parecia, eram atraídas por Zely. Certo dia, em caminho para o Banco em que trabalhávamos, resolveu jogar no "bicho". Daí começou uma batida policial e o bicheiro agarrou-a pelo braço e saiu carregando-a, correndo pela Avenida Rio Banco. Ela, salto alto, dizia: "Me solta, moço, meu marido é tira". E o homem respondia: "Não solto; a senhora ainda não me pagou".
Quando Zó me contava essas cenas, ríamos de chorar enquanto nossos colegas apenas esboçavam um risinho de canto de lábios. Muitas vezes ela mal começava a contar um caso e não conseguia ir até o final da história pois gargalhávamos.
A cena do ceguinho não tem graça, levando em conta a deficiência, porém por mais que tentássemos, não conseguíamos segurar o riso. Frequentava o Banco um deficiente visual, que chamávamos de ceguinho mesmo, que adorava ser ajudado pelo sexo feminino. Ele usava uma bengala desmontável. Naquele dia Zely e o ceguinho, aproveitando o sinal aberto aos pedestres, atravessavam a mesma Rio Branco quando um homem grandalhão que vinha em sentido oposto, sem querer, tropeçou na bengala do ceguinho. O que aconteceu foi terrível! A bengala encolheu e o pobre ceguinho, magrinho, saiu "catando cavaco". E o grandalhão todo atrapalhado a querer evitar que o ceguinho caísse. Não tem graça, mas o conjunto da cena nos fez rir muito.
Ah, Zó, que saudade dessas maluquices nossas! Que saudade de sua invasão na minha vida, da sua falta de cerimônia quando me pedia ajuda, do seu socorro quando era eu que pedia ajuda.
Ai, cara Zó, saudade de quando você mudou de departamento e seus colegas de trabalho, saudosos, brincavam dizendo: - "Voooolta, Zó"
Caixa alta: LETRAS EM MAIÚSCULA
XXX/xxx - Identificava quem elaborou o texto e quem datilografou.
Suely Domingues Canero.
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