domingo, 14 de outubro de 2018

A Maior Cantora do Brasil


A televisão chegou ao Brasil trazida por Assis Chateaubriand e começou a ser comercializada em 1950, porém poucas pessoas tinham poder aquisitivo para comprar o aparelho e, assim, era comum o proprietário de um desses deixar a janela da sala aberta para que os vizinhos pudessem assistir aos programas transmitidos na sua TV. Então as estações de rádio, o cinema e o circo ainda eram os principais meios de divertimento dos brasileiros.

Havia um cast de cantores e compositores famosos, alguns, poderíamos dizer, já cantando a sofrência, nome com que são chamadas hoje as músicas românticas e sofridas e que, na época, eram o samba-canção e o bolero.

O samba e as marchinhas de Carnaval faziam grande sucesso. Duas cantoras destacavam-se pela rivalidade entre suas fãs; Emilinha Borba e Marlene. Os animadores de programas de auditório Manoel Barcelos e César de Alencar aproveitavam o antagonismo delas para provocar aumento de audiência.

Chiquita bacana lá da Martinica se veste com a casca de banana nanica, cantava Emilinha enquanto Marlene entoava Lata d'água na cabeça, lá vai Maria... As fãs brigavam, enlouqueciam e gritavam para ambas: - É a maior!

Neste cenário surge uma nova cantora cuja maneira de cantar se assemelhava à da já consagrada cantora Dalva de Oliveira, a Rainha da Voz. No início da década de 1950 Angela Maria estourava com seus sambas-canções. Ela havia sido contratada pela Rádio Mayrink Veiga. Era sucesso após sucesso: Escuta, Recusa, Estava Escrito, Orgulho, Vida de Bailarina eram alguns títulos de suas gravações.

Angela Maria arrebatava logo à primeira audição. Eu ficava encantada com a voz de Angela, sabia as letras de todas as músicas, comprava os LPs e só tinha nove anos de idade. Colecionava a Revista do Rádio e a Radiolândia e tudo que se referia à cantora.

Em certa tarde de uma quarta-feira, fui com uma amiga à rádio Mayrink Veiga assistir ao programa onde Angela, a Sapoti, cantaria. Estava super empolgada. Sentamo-nos no auditório  e, aos primeiros acordes, me vi gritando - É a maior! - como faziam as fãs de Marlene e Emilinha.

Durante alguns anos pude ouvir seus discos a qualquer momento, mas... 

Nossa vida familiar sofreu grande mudança e a vitrola precisou ser vendida levando com ela as alegrias e o laser de uma adolescente solitária. Uma sensação de luto me envolveu então e nunca mais comprei long-plays de Angela. 
...
Descanse em paz, Abelim Maria, você nos presenteou com linda voz e interpretações magníficas durante sua vida inteira. Foi de grande importância o fato de você, mesmo escondida dos pais, participar dos programas de calouros, levando todos os prêmios até ser contratada pela Mayrink, estourar para o mundo e se transformar, por eleição popular, na eterna Rainha do Rádio e na Maior Cantora do Brasil.
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Notas:
.Getúlio Vargas, então presidente da República, apelidou-a "Sapoti"
.LP ou Long-play foi o disco de 33 e 1/3 rotações por minuto que substituiu o vinil de 78 rpmEra comum à época os animadores de auditório darem títulos aos cantores e cantoras. Francisco Alves era o Rei da Voz, Orlando Silva, o Cantor das Multidões, Silvio Caldas, o Caboclinho Querido... Era também comum os artistas mudarem o próprio nome por um mais adequado à carreira.
.Os apresentadores de programas eram chamados de animadores de auditório.

Suely Domingues Canero

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