Além da Boemia
Já aos treze anos, com a morte
repentina do pai, Cesário se viu dividindo a chefia da família, de sete
crianças, com a mãe.
Não se sabe em que momento o
menino alto e magro transformou-se em um dos homens mais elegantes do país.
Sempre bem vestido, geralmente em
ternos de panamá, cabelos rigorosamente penteados com gel fixador, sem um fio
fora do lugar, e deliciosamente perfumado. O aroma misturava perfume e cigarro,
numa combinação máscula.
Não poderia passar despercebido
pelas moçoilas que lhe lançavam suaves suspiros e lânguidos olhares.
Era goalkeeper do time que fundou: o Atília
Football Club. Ali conheceu a moça mais bonita que seus olhos já haviam
visto; Mercedes, a madrinha do time.
Logo apaixonaram-se e casaram-se.
Mas Cesário era boêmio e Mercedes
ciumenta.
As brigas eram constantes.
Lágrimas corriam pelas faces da esposa ao lavar as manchas de batom nos
colarinhos das camisas do marido.
Cesário queria chegar a casa e
sentir na mulher o calor dos braços daquelas que encontrava na rua. Mercedes
queria um marido que sentasse com ela à mesa do jantar. E brigavam.
Por seis anos brigaram e fizeram
as pazes, antes da separação.
Chegara o fim das explosões, das
lágrimas e das juras mentirosas.
Cesário partiu levando tudo que
era seu. Menos um casaco, que permaneceu pendurado em um gancho na parede.
Enquanto ali ficou, Mercedes esperou
sua volta.
Um dia ele veio, abriu a porta
com a própria chave e, sem nada dizer, pegou o casaco e levou-o, saindo de vez
do seu caminho.
O texto faz duas referências a duas das músicas temas dos
personagens: Brasa – de Lupicínio
Rodrigues e Saia do Caminho - de
Custódio Mesquita e Evaldo Ruy.
Foto do time do Atília Football Club
Foto do time do Atília Football Club
Suely Domingues

Recebi, por email, de meu amigo Amauri Rodrigues - escritor e memorialista - e faço questão de transferir para aqui pois sua opinião é importante para mim:
ResponderExcluir"Suely: tenho manias de ler e reler. Teu blog é muito bom! Já te disse, mas repito. Agora pela, manhã, dei uma paradinha nos meus escritos. Voltei a reler o bom blog da Suely. Caraca véi! Como a amiga Suely tem a rara sensibilidade! Escrever tão leve as coisas que tocam duro na gente. Memórias dos tempos humildes da vó! Da mocinha sonhadora, então? Vá fundo Suely. Você tem o sangue poético. Parabéns com abraço do velho ( velho uma ova) Von Steisloff."
Recebido por email do amigo Agrônomo: Roberto Gomes:
ResponderExcluirComo novidade maior é que o nosso grupo conquista agora uma nova escritora de muito talento no time. Uma comunicadora em linguagem simples e agradável. Extremamente simpática, e de leitura agradável. É a Suely que, modesta, não nos falava de suas memórias e escritos, mas que já os vinha produzindo de algum tempo. E os "meninos" logo aplaudiram aqueles delicados e românticos contos. Parabéns, Suely!
Resposta: Obrigada, de coração, aos amigos.
Obrigada, Roberto, por suas palavras gentis.
ResponderExcluirObrigada, Amauri, pela constante força.
Só hoje acessei seus comentários. Abraços.