quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

 Vazio

O sol entrava pela janela,

As crianças, pela porta.

O sol iluminava a casa

As crianças, o rosto dela.

Os guris cresciam,

O Sol os toldos escondiam.

O tempo passava e ninguém via.

Só de repente, muito de repente,

A consciência de que as crianças cresciam

e seus rumos definiam.

Ela olhando o sol batendo na janela

E não mais nela.

Acabaram os folguedos alegrando a casa

Onde já não se vê brinquedos...

Todos saíram e ela, triste, sente

A saudade que agora bate nela.

Suely - 30/12/2020


sexta-feira, 31 de julho de 2020

Sou Jovem

Conversava eu em uma sessão com meu psicanalista quando ele me perguntou, a propósito de meu comentário sobre envelhecer:
- Quando você percebeu que tinha envelhecido?
- Quando me olhei no espelho e não me reconheci. - Respondi

O psiquiatra ficou calado por instantes como se estivesse a vagar no espaço. Teria ele também sentido o peso do botão que fazia transformar o novo em o velho?

Eu acabara de completar setenta anos e, de uma hora para outra, as pessoas passaram a chamar-me "senhora" e a oferecer-me assento no metrô. Assim, de estalo, tudo junto como se setenta anos fosse o limite da juventude, que ainda se pudesse ter, e a velhice.

Não é fácil encarar esta pessoa que me é acabada de ser apresentada. Como conviver com a pálpebra caída, lábios não tão bem delineados, nariz que não para de crescer e ainda o desconfortante papo sob e queixo?

Passei a usar mais produtos de maquiagem como jamais havia feito. Não sei se fico ridícula, mas, se for para trazer um pouco de cor ao rosto, já me alivia.

Aprendi que para desligar-me da feiura dos efeitos das rugas devo usar três regras:

Visto roupas que valorizem o corpo ainda razoavelmente bem feitinho; uso o intelecto, o qual sinto infinitamente jovem, trabalhando minha capacidade de trazer velhas memórias e perpetuá-las em  livros e crônicas e, em contrapartida, uso vividamente as novas mudanças que o mundo me apresenta. A terceira regra é evitar o espelho para que a moça que está dentro de mim atue permanentemente.

Concluo, neste meu analisar, que ser velho não é ter marcas no rosto e no corpo. Enquanto estou debatendo temas, argumentando, resolvendo problemas, criando e realizando projetos... sou jovem.

Suely Domingues Canero
31 de julho de 2020

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A Lágrima que Não Cai


O choro nem sempre vem acompanhado da lágrima.
Quando vem do olhar perdido, do soluço contido ou da dor da alma dilacerada, ele nos traz a angústia de um passado sofrido, de um presente bandido ou de um futuro indefinido.

Ele nos toma de assalto onde quer que estejamos; basta que nos lembremos de um menosprezo, de uma ingratidão, de uma traição... Tão doído!

A lágrima não rola porque aprendemos a segurá-la, numa necessidade de enganar o mundo que não quer saber de tristezas ou incertezas.

E seguimos chorando, olhos secos, para que não nos desnudemos aos olhos de pessoas que nem estão interessadas.

Suely Domingues Canero 2019

sexta-feira, 10 de abril de 2020


Ah! Minhas avós!

Minhas avós eram criaturas muito especiais para mim. Eram esquisitas mas me eram muito queridas.
Começava pela religião quando, ali pelos anos 1940, era proibido o culto espírita. 
A avó materna, Amélia, recebia os caboclos e pretos velhos em casa mesmo. E jogava búzios. Ah! E fazia pontos para melhorar a vida da clientela.

Já a avó paterna, Carmen, me levava para as sessões espíritas, num sobrado, cuja localização não sei dizer onde ficava,  e eu  amedrontada imaginando que a polícia chegaria a qualquer momento prendendo todo mundo.
Eram meio bruxas, diferentes das avós de minhas amigas,  mas isso era incorporado  com naturalidade por mim.

Hoje, não sei se é porque é Sexta-feira Santa, lembrei-me do hábito que minha avó paterna tinha de ir a velórios e enterros.
Todos os dias após o almoço gostava de pegar um ônibus em seu bairro, ir até o ponto final e voltar a casa.

Às vezes essas voltas eram substituídas por visita ao jazigo da família, no Cemitério do Caju, no Rio. O jazigo fica no final do cemitério e tínhamos que atravessar aquelas alamedas todas. Digo tínhamos porque ela aproveitava qualquer neto que estivesse disponível para acompanhá-la nessas aventuras. Sorte dela que os netos aceitavam fazer-lhe companhia e hoje temos essa história em comum para contar a nossos descendentes.

Vovó Carmen não perdia um enterro. Primeiro os velórios eram feitos nas próprias casas, incluindo dos filhos que vovó perdeu. Tempos depois já se faziam os velórios nas capelas do próprio cemitério. E vovó estava lá para cumprir a solidariedade com algum vizinho que perdera um ente querido.

Certo dia minha avó resolveu ir sozinha a um velório pois não havia neto disponível.
Foi lá, levantou o véu que cobria o rosto do falecido, sentou-se em um banco e começou a observar os presentes. Não reconheceu qualquer que fosse familiar do morto. Passado um tempo, decidiu confirmar com alguém o nome do falecido e quase caiu dura ao perceber que estava no velório errado. Já passara da hora do enterro do defunto certo e ela voltou frustrada para casa.

Triste por não ter cumprido o dever solidário com os vizinhos, contou aos filhos o que acontecera, lamentando-se muito.

Ao contrário do apoio que pretendia dos filhos, recebeu muita risada. Daí para a frente meus tios não pararam mais de relembrar essa história e ainda acrescentavam à brincadeira a informação de que todos os dias ela pegava o obituário dos jornais procurando onde seria o próximo velório a levar os pêsames.

abril2020Suely

sábado, 28 de março de 2020

Coroa de Espinhos

A ordem era clara: todos trancados em suas casas.
A cidade parou, o país parou, o mundo parou.
O que estaria havendo?
Todos perplexos! O brasileiro estava incrédulo.
De repente, todos teriam que se enclausurar dentro das própias casas.
O país iria fechar: aulas, comércio, transportes de carga e transportes urbanos.
Só serviços essenciais funcionariam. Surreal!

Chegava ao Brasil uma gripe cujo agente provocador tinha a forma de coroa.
Era o coronavírus, uma nova espécie de gripe que poderia ser mortal.
A segregação era importante para não transmissão da doença.

Alguns lembraram-se de ouvir falar na gripe espanhola que aconteceu em 1918.
Muitos questionavam se eram verdadeiras as histórias terríveis que se contava sobre os efeitos daquela gripe avassaladora.
Sim, eram verdadeiras. Ainda muito pequena ouvia de minha avó, imigrante espanhola, que os corpos dos mortos eram atirados nas calçadas pelas próprias famílias para aguardarem uma carroça que os viria recolher.

Eu mesma passara por uma experiência horrível em 1957 com a gripe asiática, gripe pouco comentada, quase esquecida, mas que foi terrível.

Estava  na escola quando me apareceram os sintomas. Levada à Diretoria pude encontar outras alunas na mesma situação. Daí a pouco os pais foram chegando para pegar as filhas.
Diagnosticado o problema pelo médico, a receita era limonada. E o limão... sumiu do mercado.
Quase morri. Queimava em febre. Não comia. Fui salva pela sopinha que minha avó Amélia me deu em colheradas na boca e pelas cocadas dos santos Cosme e Damião que meus primos ganharam no dia 27 de setembro daquele ano.

Estamos agora em 2020, março. Por causa da coroa, confinados em nossos próprios castelos.
No início, sensação de liberdade. Ninguém me poderá solicitar nada. Estarei livre só para mim.
Mas o isolamento demorado traz a angústia, a ansiedade. Ainda mais quando se está em situação de risco. Enclausuramento total para os idosos e doentes crônicos e severos. Esses correm maior risco de morte.

Quanto tempo vai durar esta prisão? Que mundo encontraremos lá fora? Dizem que estamos nos purificado, que forças espirituais estão agindo. E eu lembro: Só os bons viverão.

Enquanto não temos perspectivas de liberdade física, vamos rezando o terço, como Maria, nossa Mãe, nos recomendou.


Suely 2021

Obs.: 18 de março de 2021 - A pandemia não terminou e já se apresenta a segunda onda com o vírus em mutação.l 


domingo, 1 de dezembro de 2019

Bom dia, tristeza!

Na adolescência eu era chegada à introspecção. Foi quando comecei a escrever, a tingir o papel com minha tinta azul Parker King.

Se o tempo estava nublado, ah! Que belas crônicas surgiam!
Se o céu estava estrelado, ah! Que belas poesias brotavam!

Era só uma adolescente, sem saber muito da vida, mas que trazia a alma solitária. Bastava que nuvens cinzentas escondessem o sol e logo me tomava o desejo de mostrar em uma folha de caderno a cor de minha alma.

Já aos dezoito anos, a caneta Parker 21, ganha do primeiro namoradinho, ia colorindo o papel com palavras de amor e solidão. O céu estrelado ou enluarado trazia saudade de um amor encantado que não existia. E estrelas me ditavam o que escrever entre suspiros.

Boleros e sambas-canções, seguidos da bossa nova substituiram a escrita por devaneios contemplativos. E o enlevo me transportava para um mundo mágico.

O acaso me trouxe certa música num desses dias em que a gente sente uma coisa no peito e não sabe o que é. Cantei-a e senti bem estar, como se fora uma pilulinha de ópio. Daí outras vezes aconteceram. Aos sintomas de tristeza eu cantava a música e logo o astral subia.

Não sei como Ricardo descobriu meu segredo. Talvez eu mesma tenha contado. E ele passou a cantá-la para mim sempre que me via calada, distante...
Fiquei um tempo meio longo sem ver o Ricardo, talvez vinte anos...
Em 2009 encontrei-o em um evento e, para minha surpresa, me perguntou:

- Lembra? E cantarolou:

- Bom dia, tristeza. Que tarde, tristeza! Você veio hoje me ver...

Sim, eu me lembrava. E fiquei grata por ele também se lembrar após tanto tempo.

E, exatamente dez anos depois daquele encontro, estou a relembrar um pedaço de minha vida, pretexto para render homenagem ao querido amigo que há pouco se foi a levar alegrias e esperanças em outras dimensões.

Suely Domingues Canero
dezembro 2019

A música é:" Bom dia, tristeza", de Adorinan Barbosa

"Bom dia, tristeza./ Que tarde, tristeza./ Você veio hoje me ver/ Já estava ficando/ Até meio triste/ De estar tanto tempo/Longe de você.
Se chegue, tristeza/Se sente comigo/Aqui, nesta mesa de bar/Beba do meu copo/Me dê o seu ombro/Que é para eu chorar/Chorar de tristeza/Tristeza de amar./ 

quarta-feira, 27 de novembro de 2019


Lá vai Maria - tributo

Nascida no início dos anos 1940, conheci a primeira favela do Rio de Janeiro.
Ela ficava no confronto da Rua da Gamboa com Rua da América, Santo Cristo, região portuária,  Pequenos barracos surgiram no local onde, com a eleição em 1945 do Presidente Eurico Gaspar Dutra, foi construída a Vila Portuária.

Conta-se que os soldados que lutaram na Guerra dos Canudos, na Bahia vieram ao Rio de Janeiro para tentar conseguir trabalho no cais do porto.
Estes soldados, sem salários e sem soldos, criaram seus casebres no morro, coberto apenas de vegetação que, segundo eles, se assemelhava à que existia no morro no qual habitaram em Canudos, chamado "favela". Por este motivo o morro carioca passou a chamar-se Morro da Favela.
Essa é uma das versões sobre a ocupação e é na que acredito.

Ali também habitavam os ex-escravos que, com a abolição da escravatura ficaram sem tutor e sem emprego.

Apenas uns poucos anos depois já existiam outras ocupações de morros no Rio de Janeiro, com pessoas humildes que suportavam viver sem energia elétrica e sem água encanada.

Quando uns dez anos depois, já começando os anos 1950, minha família mudou para Santa Teresa, um bairro muito procurado por estrangeiros, em especial alemãs, devido ao clima fresco e agradável, pudemos conviver com o início do morro da Coroa. Aí, os morros habitados, batizados com outros nomes, já eram tratados todos como favelas.

Como não havia água, as mulheres costumavam descer ao asfalto para pedir um balde ou uma lata de água a alguém que se apiedasse do seu martírio. E lá iam elas, subindo o morro com lata de água na cabeça, equilibrando-se, pois as mãos tinham que estar livres para puxar as crianças. Mas iam cantando, cumprimentando, rindo.

Neste cenário minha família se incluída. Tínhamos uma torneira no quintal da frente da casa onde era permitido que as mulheres ali enchessem suas latas. Minha mãe ficou muito conhecida entre as gentes em virtude desse gesto solidário.

Essa vida sacrificada inspirou dois poetas, Luiz Antonio e Candeias (Jota Jr?) a comporem a Música 
Lata D´água, gravada pela cantora de muito sucesso, Marlene.


Obs.:
"Lata d'água na cabeça
Lá vai Maria, Lá vai Maria
Sobe o morro e não se cansa
Pela mão leva a criançaLá vai MariaMaria Lava roupa lá no altoLutando pelo pão de cada diaSonhando com a vida do asfaltoQue acaba onde o morro principia."

Suely Domingues Canero