quinta-feira, 9 de julho de 2020

A Lágrima que Não Cai


O choro nem sempre vem acompanhado da lágrima.
Quando vem do olhar perdido, do soluço contido ou da dor da alma dilacerada, ele nos traz a angústia de um passado sofrido, de um presente bandido ou de um futuro indefinido.

Ele nos toma de assalto onde quer que estejamos; basta que nos lembremos de um menosprezo, de uma ingratidão, de uma traição... Tão doído!

A lágrima não rola porque aprendemos a segurá-la, numa necessidade de enganar o mundo que não quer saber de tristezas ou incertezas.

E seguimos chorando, olhos secos, para que não nos desnudemos aos olhos de pessoas que nem estão interessadas.

Suely Domingues Canero 2019

sexta-feira, 10 de abril de 2020


Ah! Minhas avós!

Minhas avós eram criaturas muito especiais para mim. Eram esquisitas mas me eram muito queridas.
Começava pela religião quando, ali pelos anos 1940, era proibido o culto espírita. 
A avó materna, Amélia, recebia os caboclos e pretos velhos em casa mesmo. E jogava búzios. Ah! E fazia pontos para melhorar a vida da clientela.

Já a avó paterna, Carmen, me levava para as sessões espíritas, num sobrado, cuja localização não sei dizer onde ficava,  e eu  amedrontada imaginando que a polícia chegaria a qualquer momento prendendo todo mundo.
Eram meio bruxas, diferentes das avós de minhas amigas,  mas isso era incorporado  com naturalidade por mim.

Hoje, não sei se é porque é Sexta-feira Santa, lembrei-me do hábito que minha avó paterna tinha de ir a velórios e enterros.
Todos os dias após o almoço gostava de pegar um ônibus em seu bairro, ir até o ponto final e voltar a casa.

Às vezes essas voltas eram substituídas por visita ao jazigo da família, no Cemitério do Caju, no Rio. O jazigo fica no final do cemitério e tínhamos que atravessar aquelas alamedas todas. Digo tínhamos porque ela aproveitava qualquer neto que estivesse disponível para acompanhá-la nessas aventuras. Sorte dela que os netos aceitavam fazer-lhe companhia e hoje temos essa história em comum para contar a nossos descendentes.

Vovó Carmen não perdia um enterro. Primeiro os velórios eram feitos nas próprias casas, incluindo dos filhos que vovó perdeu. Tempos depois já se faziam os velórios nas capelas do próprio cemitério. E vovó estava lá para cumprir a solidariedade com algum vizinho que perdera um ente querido.

Certo dia minha avó resolveu ir sozinha a um velório pois não havia neto disponível.
Foi lá, levantou o véu que cobria o rosto do falecido, sentou-se em um banco e começou a observar os presentes. Não reconheceu qualquer que fosse familiar do morto. Passado um tempo, decidiu confirmar com alguém o nome do falecido e quase caiu dura ao perceber que estava no velório errado. Já passara da hora do enterro do defunto certo e ela voltou frustrada para casa.

Triste por não ter cumprido o dever solidário com os vizinhos, contou aos filhos o que acontecera, lamentando-se muito.

Ao contrário do apoio que pretendia dos filhos, recebeu muita risada. Daí para a frente meus tios não pararam mais de relembrar essa história e ainda acrescentavam à brincadeira a informação de que todos os dias ela pegava o obituário dos jornais procurando onde seria o próximo velório a levar os pêsames.

abril2020Suely

sábado, 28 de março de 2020

Coroa de Espinhos

A ordem era clara: todos trancados em suas casas.
A cidade parou, o país parou, o mundo parou.
O que estaria havendo?
Todos perplexos! O brasileiro estava incrédulo.
De repente, todos teriam que se enclausurar dentro das própias casas.
O país iria fechar: aulas, comércio, transportes de carga e transportes urbanos.
Só serviços essenciais funcionariam. Surreal!

Chegava ao Brasil uma gripe cujo agente provocador tinha a forma de coroa.
Era o coronavírus, uma nova espécie de gripe que poderia ser mortal.
A segregação era importante para não transmissão da doença.

Alguns lembraram-se de ouvir falar na gripe espanhola que aconteceu em 1918.
Muitos questionavam se eram verdadeiras as histórias terríveis que se contava sobre os efeitos daquela gripe avassaladora.
Sim, eram verdadeiras. Ainda muito pequena ouvia de minha avó, imigrante espanhola, que os corpos dos mortos eram atirados nas calçadas pelas próprias famílias para aguardarem uma carroça que os viria recolher.

Eu mesma passara por uma experiência horrível em 1957 com a gripe asiática, gripe pouco comentada, quase esquecida, mas que foi terrível.

Estava  na escola quando me apareceram os sintomas. Levada à Diretoria pude encontar outras alunas na mesma situação. Daí a pouco os pais foram chegando para pegar as filhas.
Diagnosticado o problema pelo médico, a receita era limonada. E o limão... sumiu do mercado.
Quase morri. Queimava em febre. Não comia. Fui salva pela sopinha que minha avó Amélia me deu em colheradas na boca e pelas cocadas dos santos Cosme e Damião que meus primos ganharam no dia 27 de setembro daquele ano.

Estamos agora em 2020, março. Por causa da coroa, confinados em nossos próprios castelos.
No início, sensação de liberdade. Ninguém me poderá solicitar nada. Estarei livre só para mim.
Mas o isolamento demorado traz a angústia, a ansiedade. Ainda mais quando se está em situação de risco. Enclausuramento total para os idosos e doentes crônicos e severos. Esses correm maior risco de morte.

Quanto tempo vai durar esta prisão? Que mundo encontraremos lá fora? Dizem que estamos nos purificado, que forças espirituais estão agindo. E eu lembro: Só os bons viverão.

Enquanto não temos perspectivas de liberdade física, vamos rezando o terço, como Maria, nossa Mãe, nos recomendou.


Suely 2021

Obs.: 18 de março de 2021 - A pandemia não terminou e já se apresenta a segunda onda com o vírus em mutação.l 


domingo, 1 de dezembro de 2019

Bom dia, tristeza!

Na adolescência eu era chegada à introspecção. Foi quando comecei a escrever, a tingir o papel com minha tinta azul Parker King.

Se o tempo estava nublado, ah! Que belas crônicas surgiam!
Se o céu estava estrelado, ah! Que belas poesias brotavam!

Era só uma adolescente, sem saber muito da vida, mas que trazia a alma solitária. Bastava que nuvens cinzentas escondessem o sol e logo me tomava o desejo de mostrar em uma folha de caderno a cor de minha alma.

Já aos dezoito anos, a caneta Parker 21, ganha do primeiro namoradinho, ia colorindo o papel com palavras de amor e solidão. O céu estrelado ou enluarado trazia saudade de um amor encantado que não existia. E estrelas me ditavam o que escrever entre suspiros.

Boleros e sambas-canções, seguidos da bossa nova substituiram a escrita por devaneios contemplativos. E o enlevo me transportava para um mundo mágico.

O acaso me trouxe certa música num desses dias em que a gente sente uma coisa no peito e não sabe o que é. Cantei-a e senti bem estar, como se fora uma pilulinha de ópio. Daí outras vezes aconteceram. Aos sintomas de tristeza eu cantava a música e logo o astral subia.

Não sei como Ricardo descobriu meu segredo. Talvez eu mesma tenha contado. E ele passou a cantá-la para mim sempre que me via calada, distante...
Fiquei um tempo meio longo sem ver o Ricardo, talvez vinte anos...
Em 2009 encontrei-o em um evento e, para minha surpresa, me perguntou:

- Lembra? E cantarolou:

- Bom dia, tristeza. Que tarde, tristeza! Você veio hoje me ver...

Sim, eu me lembrava. E fiquei grata por ele também se lembrar após tanto tempo.

E, exatamente dez anos depois daquele encontro, estou a relembrar um pedaço de minha vida, pretexto para render homenagem ao querido amigo que há pouco se foi a levar alegrias e esperanças em outras dimensões.

Suely Domingues Canero
dezembro 2019

A música é:" Bom dia, tristeza", de Adorinan Barbosa

"Bom dia, tristeza./ Que tarde, tristeza./ Você veio hoje me ver/ Já estava ficando/ Até meio triste/ De estar tanto tempo/Longe de você.
Se chegue, tristeza/Se sente comigo/Aqui, nesta mesa de bar/Beba do meu copo/Me dê o seu ombro/Que é para eu chorar/Chorar de tristeza/Tristeza de amar./ 

quarta-feira, 27 de novembro de 2019


Lá vai Maria - tributo

Nascida no início dos anos 1940, conheci a primeira favela do Rio de Janeiro.
Ela ficava no confronto da Rua da Gamboa com Rua da América, Santo Cristo, região portuária,  Pequenos barracos surgiram no local onde, com a eleição em 1945 do Presidente Eurico Gaspar Dutra, foi construída a Vila Portuária.

Conta-se que os soldados que lutaram na Guerra dos Canudos, na Bahia vieram ao Rio de Janeiro para tentar conseguir trabalho no cais do porto.
Estes soldados, sem salários e sem soldos, criaram seus casebres no morro, coberto apenas de vegetação que, segundo eles, se assemelhava à que existia no morro no qual habitaram em Canudos, chamado "favela". Por este motivo o morro carioca passou a chamar-se Morro da Favela.
Essa é uma das versões sobre a ocupação e é na que acredito.

Ali também habitavam os ex-escravos que, com a abolição da escravatura ficaram sem tutor e sem emprego.

Apenas uns poucos anos depois já existiam outras ocupações de morros no Rio de Janeiro, com pessoas humildes que suportavam viver sem energia elétrica e sem água encanada.

Quando uns dez anos depois, já começando os anos 1950, minha família mudou para Santa Teresa, um bairro muito procurado por estrangeiros, em especial alemãs, devido ao clima fresco e agradável, pudemos conviver com o início do morro da Coroa. Aí, os morros habitados, batizados com outros nomes, já eram tratados todos como favelas.

Como não havia água, as mulheres costumavam descer ao asfalto para pedir um balde ou uma lata de água a alguém que se apiedasse do seu martírio. E lá iam elas, subindo o morro com lata de água na cabeça, equilibrando-se, pois as mãos tinham que estar livres para puxar as crianças. Mas iam cantando, cumprimentando, rindo.

Neste cenário minha família se incluída. Tínhamos uma torneira no quintal da frente da casa onde era permitido que as mulheres ali enchessem suas latas. Minha mãe ficou muito conhecida entre as gentes em virtude desse gesto solidário.

Essa vida sacrificada inspirou dois poetas, Luiz Antonio e Candeias (Jota Jr?) a comporem a Música 
Lata D´água, gravada pela cantora de muito sucesso, Marlene.


Obs.:
"Lata d'água na cabeça
Lá vai Maria, Lá vai Maria
Sobe o morro e não se cansa
Pela mão leva a criançaLá vai MariaMaria Lava roupa lá no altoLutando pelo pão de cada diaSonhando com a vida do asfaltoQue acaba onde o morro principia."

Suely Domingues Canero







quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Encantos e Mistérios de uma Menina


Quem é essa menina que ri do nada, que chora do nada,
Que se entrega a silenciosos devaneiros?
Ainda há pouco as bonecas fantasiavam seu mundo
De meninas iguais, num clube onde meninos não entravam.

Quem é essa menina que guarda segredos,
Que esconde seus medos?
Quem é essa menina que dança sozinha, 
Se olha no espelho, se maquia num mundo-magia,
Se joga inteirinha pra vida que pra ser feliz a convida?

Quem é essa menina com jeito de anjo, e atitude aguerrida?
Quem é essa menina que já não o é?
Quem é esse botão de flor que desabrochou?

É ela, faceira, que de dezoito primaveras se aproxima,
Que deixa a menina pra trás e, destemida, cuida da vida 
E se atira em busca da ponta do arco-iris.

Para Giulia, minha neta.
Suely Domingues Canero
outubro 2019.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Que mídia era aquela?!


Quando era bem pequena, assisti a dois re-encontros de uma forma que, à época, parecia natural: o boca-a-boca. Porém hoje, com todas as facilidades internáuticas, GPS, Waze etc., parece-nos impossível a forma como teria acontecido.

Vou contar-lhes, começando pela história de D. Cândida: sua persistência, sua saudade e seu amor.

Quando minha avó Amélia casou-se com "seu" Eugênio, ele trouxe sua filha, Yvonne que, até então, era criada pela avó paterna, D. Cândida, que, diziam, havia sido escrava.

Quando Yvonne estava com 13 anos, Eugênio teve um ataque cardíaco vindo a falecer. Assim, Yvonne ficou sem mãe, sem pai e sem avó, pois haviam perdido contato. Mas tinha a madrasta, minha avó, que acabou de criá-la. 

Vó Amélia mudou-se de moradias algumas vezes. Assim, Yvonne perdeu o vínculo com qualquer parente sanguineo. Acabaram fixando residência em um bairro da região portuária do Rio de Janeiro. 

Muitos anos se passaram. Yvonne já estava uma mulher quando apareceu na porta da casa onde moravam uma senhorinha negra, curvada, doente à sua procura.  Era D. Cândida que jurara que antes de morrer haveria de encontrar sua única neta. O encontro foi emocionante e a senhora, muito doente, pôde passar os poucos dias que ainda lhe restavam de vida junto àquela menina que um dia saiu de sua casa e não mais voltou.

Saber como chegou ao endereço da neta é um mistério nunca desvendado.

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O segundo caso aconteceu com essa mesma avó Amélia. 
Era inverno e minha avó viu que, no bairro portuário em que residiam, havia uma senhora morando na rua. Sensibilizada, solidária, chamou a mulher a dormir num cantinho da cozinha. No início era só isso e um prato de comida. Aos poucos nossa família começou a perceber os hábitos e modos finos da senhora e ela passou a morar conosco, dormindo no quartinho do porão da casa.

Stella era seu nome, mas todos a chamavam de Dona Stella, incluindo minha avó. Era época de segunda guerra mundial e ela contava que o filho partira para a guerra, na Itália. A família ouvia a história com certa dúvida. Nunca se soube como ela ficou naquela situação de miséria. Como viera aparecer naquele bairro portuário? Especulava-se se teria vindo trazer o filho ao navio que o levaria à guerra e por ali ficava na esperança de breve retorno.

Aquela era uma época de muita aflição, pois o presidente Getúlio Vargas, que assegurava que não entraria na segunda guerra mundial que estava acontecendo, tendo navios brasileiros afundados por alemãs, não teve alternativas e enviou tropas para a Itália. Cada mãe ou esposa temia pela convocação de seus rapazes para lutar no front italiano.

D. Stella aparentava tranquilidade. Pensava na possibilidade de o filho estar vivo, mas pouco falava no assunto. Será que acreditavam nela?

Certo dia de 1948, já passados três anos do término da guerra e sem notícias do filho, Stella viu aparecer um jovem casal na porta do casarão onde moravam. Um jovem moreno, alto, bonito trazia uma mala. Uma mulher linda segurava seu braço. Era Noêmia, italiana com quem Luiz, o pracinha, filho de D. Stella, casara. Noêmia era alta, pele clara, corpo bem feito, cabelos compridos com cachos suaves. Chegou enchendo o ambiente de beleza. E Luiz, após apresentá-la a todos, anunciou que viera para buscar a mãe. Nenhum gesto de carinho. Sem abraço, sem beijo, sem emoção...

Minha avó apontou-lhe o dedo no nariz dizendo que ele abandonara a mãe na rua  e faria de novo e que fariam a mãe de empregada, e lançou mil argumentos para que D. Stella não os acompanhasse... Mas  a sofrida mãe quis ir-se com ele. E assim nossa querida moradora deixou um vazio enorme em nossos corações. Lembro-me de que chorei muito. Ninguém mais me chamaria de cambaxirra.


Suely DominguesCanero - set.2019