quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

 Mindó.

Ali, pelos meus oito anos, tinha um amigo chamado Mindó. Só o conhecia pelo apelido pois nunca soube seu nome verdadeiro. 

Houve uma época em que eu ficava sozinha em casa, pois minha mãe precisou trabalhar fora  uma vez que as costurinhas que fazia para as freguesas já não eram suficientes para o suprimento total da casa. Eu precisava ficar sozinha.

O meu dia era dividido: ora estava à janela vendo o movimento da rua, ora na loja de consertos e alugueis de bicicletas de propriedade de meu padrinho, na mesma rua. Era aos fundos dessa loja que ficava a casa de Mindó. 

Mindó era filho de "seu" Manduca que no verão businava às seis horas da manhã chamando a vizinhança para ir, em seu caminhão, à praia do Caju para um mergulho antes do trabalho.

Nessa época Mindó era meu melhor amigo pois, ou estávamos na loja ou ele estava pendurado fora de minha janela a conversar comigo. Não sei do que tanto conversávamos pois ficávamos horas a matraquear e ele pendurado na janela. Nossa amizade iniciara  após uma briga nossa no meio da rua. Fomos separados por um policial que ia passando e nos deu uma boa bronca. 

Certo dia notei o olhar assustado de Mindó. Pendurado na janela ele via o interior da casa. Seu olhar se fixava sobre meu ombro. Instintivamente olhei para trás e vi, na cozinha, apenas a perna de um homem em fuga.

Abri rapidamente a porta de acesso à rua e corremos para a loja de meu padrinho contando num só fôlego o que acontecera. Meu coração aos pulos. . A vizinhança, em polvorosa, entrou em casa para pegar o sujeiro que, provavelmente, escapuliu pelos telhados. 

À noitinha, quando minha mãe chegou em casa, contei-lhe a história toda. Numa de detetive ela perguntou:

- Qual era a cor da calça do homem?

- Preta, listrada. Respondi.

Mindó também foi "convocado" para outro interrogatório. 

- Qual era a cor da calça do homem? Perguntou minha mãe a Mindó.

- Preta, listrada. Respndeu ele.

Grande alívio senti, pois até eu já duvidava do que tinha visto da invasão da casa pelo estranho.

Isso já vai bem longe: do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, como pregava minha madriha. 

Nada se fez. Nossa vida continuou normal e Mindó continuou pendurado em minha janela durante uns bons anos.

Suely 2020

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