domingo, 22 de julho de 2018

Ovo de Chocolate  - Afago na Alma          (Da série: Vovó Anos 1940)


Desde que a avó colocara o ovo de Páscoa que ganhara de uma vizinha na cristaleira, Linda ansiava por provar um pedaço daquele chocolate. Já o sentia derreter em sua boca e escorrer garganta abaixo.

Linda estava acostumada às delícias do bastão de chocolate roliço da fábrica Bhering, situada no bairro onde morava, com o qual roçava os lábios a fingir que era batom. Então ia sorvendo, aos poucos, a delícia daquele paladar que lhe despertava todos os sentidos. 

Por isso esperava ansiosa o momento em que vovó Carmen repartiria o presente tão fortemente guardado no móvel da sala.

Única criança da família, suas vontades eram todas satisfeitas e, assim, chegou-se à avó e perguntou:

- Vó, quando você vai abrir o ovo?

- Deixa o ovo quieto lá, menina. - Respondeu a velha espanhola.

Linda deixou o ovo quieto, porém em todos os dias corria à cristaleira para ver se ele ainda estava lá. Queria estar por perto quando a avó o abrisse.
Não abandonava a sensação de ir aos céus ao colocar o primeiro pedaço na língua.

Os dias foram passando, as semanas e meses também.  O ovo virou um enfeite permanente. 
Linda já se conformara e quase não se dava conta da presença dele.
Por que a velhota o expunha torturante no móvel de vidro? Por que não o repartia para que todos comecem um pedacinho que fosse? Para Linda aquilo não tinha sentido.

Certo dia o ovo sumiu e a menina correu à avó a perguntar:

Vó, cadê o ovo de Páscoa da cristaleira?

- Joguei fora. Mofou - Disse a velha.

Linda sentiu muita tristeza. Acostumada aos mimos da família, como a avó lhe negara um pedaço do chocolate do ovo? Por que deixou que se estragasse?
Amuada, sentou-se ao pé da escada que levava a cozinha ao quintal enquanto uma lágrima descia em sua face. Apesar de amar muito a avó não o poderia naquele momento.

Só a velha imigrante sabia o que representava para ela mesma aquele ovo de Páscoa. O doce que nunca tivera em criança, época de extrema pobreza. Não poderia reparti-lo. Ela ganhara, já na maturidade, seu primeiro ovo de Páscoa, seu primeiro doce, e quis prorrogar o prazer de tê-lo ganho, de estar feliz.

Olhou enternecida para a neta, porém, só aquela vez, não poderia ter mimado sua querida garotinha. Mas pôde convidá-la para o lanche da tarde que Linda adorava, aquele que as tornava cúmplices; uma xícara de chocolate quente.


Suely Domingues Canero - 2018

3 comentários:

  1. Amei!!! Vó Carmem pessoa muito querida!

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  2. Suely, suas histórias são de uma sensibilidade, uma poesia para a alma!
    Adorei conhecer o seu blog e me tornei
    sua leitora.
    Parabéns, não sabia que aí dentro existia uma escritora!!

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