sábado, 4 de maio de 2019

Palavras Mal Ditas

Palavras mal ditas

É muito difícil dialogar com pessoas que não procuram entender a mensagem de uma frase mal construída, melindrando-se com o que, erradamente, interpretam o que diz o interlocutor que não foi feliz na colocação das palavras. Porém, ao invés de pedir explicação do que ouviu ou deixar que o interlocutor tente explicar-se, não dão oportunidade de ouvir as construções em uma nova abordagem. Melindram-se, magoam-se e magoam o orador com a falta de oportunidade de se explicar, deixando que o mal estar pese em ambos.

É certo que existem também pessoas que não sabem expressar-se devidamente e não têm filtragem verbal, levando o ouvinte a interpretar de forma maldita suas palavras. 

Qual a proposta? A proposta seria que, após uma palavra mal dita, o ouvinte dê ao opositor a oportunidade de expressar-se de maneira tal que dirima as dúvidas que causou desconforto ao diálogo e que levou à mágoa.

Construída de maneira correta poderá haver o perdão do mal dito, tornando a palavra maldita em bendita.

E benditos sejam os diálogos claros e clareados, se oportunidade tiverem.


Suely Domingues Canero
2019



Oi, Mãe,



Oi, Mãe,


Aproxima-se o dia das mães; de todas as mães.

Para mim, dia das mães, do teu aniversário, do teu adeus a este mundo são os dias em que me lembro mais profundamente de você, embora não haja um dia em que você não apareça em meus pensamentos.

Imagine, mãe, que venho me comportando anos e anos como se filha única fosse, porém hoje tomei consciência de que você tem a Suelem que, claro, deve estar em seu lado, aproveitando com você a vida que não puderam ter aqui.

Egoisticamente fico pensando que você ainda depende unicamente de meu amor filial para levar-lhe mensagens, pensamentos e orações. Porque você me fez tudo como se única eu fosse.

Mas você tem a Suelem também, mãe. E ela está aí, com você, te dando todo carinho e conforto que a precoce separação não lhes permitiu compartilhar.

Mãe, que bom tomar consciência disso hoje, que me trouxe tanta emoção. Vou ter que reprogramar toda a fita em meus pensamentos, pois entendi agora que sua felicidade não dependia só de mim. 

Feliz Dia das Mães para vocês. mãe e Suelem. Muita luz!


Suely Domingues Canero
2018








terça-feira, 9 de abril de 2019

Lincoln Ferreira Espíndola

LINCOLN FERREIRA ESPINDOLA

A placa com o nome do médico ficava fixada na porta do casarão de número 39 da Rua da América, em Santo Cristo, onde alugava dois cômodos que lhe serviam de consultório.

Dr. Lincoln era o médico das famílias dos bairros de Santo Cristo e Saúde, na região portuária do Rio de Janeiro. Ali viviam muitos núcleos familiares de imigrantes portugueses e espanhóis, como era o caso de Dona Carmen, que imigrou adolescente de Vigo, Espanha.

Criara sozinha os sete filhos após a viuvez e não pensou duas vezes quando o médico propôs alugar-lhe os cômodos da frente de sua casa para transformá-los em consultório.

Uma vez acordado, o médico, então, fizera sua mudança trazendo seu pouco mobiliário do número 36, onde clinicava nos fundos da Farmácia, de D. Clarice e Sr. Alípio. Na Saúde, seu consultório ficava na Rua Pedro Ernesto, aos fundos da farmácia de propriedade de seu irmão.

Estatura mediana, puxando para um tipo meio gordinho, elegante em seu uniforme branco de profissão, sempre  acompanhado de sua maleta com os instrumentos necessários aos diagnósticos e aos primeiros socorros. Para auscultar o paciente usava o próprio ouvido encostado às suas costas. Atendia a todos, desde crianças, partos, idosos e a qualquer chamado que fosse necessário. 

Era médico autônomo e cobrava o preço da consulta que estava ao alcance dos moradores.  Por vários e vários anos atendeu aquela população carente que lhe depositava confiança. Quando alguém adoecia, inevitavelmente, ouvia-se o pedido:

- Chama o Dr. Lincoln?

Alguns anos depois o médico mudaria seu consultório para o sobrado do número 38, na mesma rua da América.

Nessa jornada, vivenciou anos de atendimento médico de sucesso, muitos casos difíceis que teve que enfrentar, praticamente sem recursos, em seu modesto consultório. Talvez o caso mais dramático tenha sido o de uma menina de cinco anos trazida ao colo por sua desesperada mãe e em poucos minutos, apesar dos esforços médicos, morreria, consternando todo o bairro.

Ao mudar-me de Santo Cristo na adolescência perdi o contato com o Dr. Lincoln e com muitas pessoas que fizeram parte de minha infância.

Mas uma surpresa me aguardava para dali a alguns anos; minha avó, D. Carmen, que lhe alugara os cômodos, convidou-o, em 1969, para meu casamento cuja recepção foi em casa dela, a mesma onde Dr. Lincoln clinicara.

Ao vê-lo ali, em meu casamento, em uma casa tão simples, fiquei feliz e agradeci à minha avó o carinho de me proporcionar um presente não material, mas afetivo, pedaço de minha memória, reforçada pelo discurso que o médico preparara para a tradicional hora de cortar o bolo.

Após deixar Santo Cristo, imaginava que deixaria para trás meu passado. Ingênua ilusão! Ah! as saudades! Memórias daquelas figuras impressionantes; os médicos de famílias, tais como encarnava o doutor Lincoln! E, em qual plano aquele médico estiver, saiba que terá gravada com carinho a sua dedicação a todos os clientes da Saúde e do inesquecível Santo Cristo da minha infância.

~.~

Fonte: pesquisa com moradores da época (Anos 40 e 50), baseado apenas em memórias, nem sempre precisas
           Último parágrafo: colaboração de meu amigo escritor Amauri Rodrigues.

Após Dr. Lincoln mudar-se, outro bondoso médico assumiu os pacientes. Ele fazia também um papel social e, após a derrubada das casas do lado ímpar da Rua da América, para a construção de um viaduto, este lado da rua ganhou o seu nome: Waldemar Dutra. O lado direito continua como Rua América.

Suely Domingues Canero

domingo, 31 de março de 2019

Aniversariando


Mais um 30 de março!
Mais um outono; mais uma "primavera".
Mais certezas e mais dúvidas.
Menos culpas.
Ânsia maior, e cada vez maior, de liberdade.
Que apontem o dedo pra lá porque, para mim, não adianta.
Tenho aquela adolescência natural dos idosos 
e tamblém a seriedade bobona dos adultos.
Quero um yeyeyê para dançar até cansar.
Também quero aquela paquera antiga que a net sabe onde encontrar.
Quero amigos pra dizer "olá". E inimigos pra dizer 'vá se catar'.
Quero ser eu e somente eu.
Quero comemorar com uma taça de vinho o meu aniversariar.

Suely Domingues Canero - em 30 de março de 2014.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Vovós Benzedeiras (Da série Vovós anos 1940)

Eu e minha irmã caçula, Suelem, ainda bebês, contraímos sarampo. Suelem veio a falecer deixando a família desolada e mamãe em desespero, sentindo-se culpada. Não era.

A época era de pouco avanço na medicina, sem vacina e sem tratamento para a doença. Os mais velhos diziam que para curar sarampo bastava colocar um lenço vermelho no pescoço. Mas não, a terrível doença poderia levar à meningite e à morte. E foi o que aconteceu à pequena Suelem.

Após esse episódio dramático, mamãe apavorava-se a cada vez que eu tinha pequena febre ou náuseas e corria a pedir socorro às minhas avós, que moravam nas vizinhanças. E lá vinham elas em socorro da neta.

Ambas as avós eram espíritas. Vovó Amélia logo baixava um caboclo e me dava passes ou, caso fosse um simples galo na cabeça, pegava um facão e, batendo na porta, dizia:

- Esta porta tem três tábuas: um, dois, três. 
E no um, no dois e no três, apertava a lateral da faca no galo "para não cantar de noite".

Também me fazia passar por um exame minucioso de "espinhela caída". Juntava meus braços no alto da cabeça como se fizesse um alongamento. As pontas dos dedos tinham que terminar juntas; caso uma delas estivesse mais curta durante o alongamento, o diagnóstico: espinhela caída. E vinha a receita: um banho de sal grosso com arruda:

- Não pode jogar água na cabeça; é do pescoço para baixo.

Já minha avó paterna, Carmen, possuía o poder de acalmar-me, de transmitir-me confiança tão grande que mal eu começava a sentir os primeiros sinais de mal estar pedia que a chamassem. Ela sentava-se a meu lado na cama, punha as mãos em minha testa e rezava. Aquilo me confortava muito e me dava a certeza de que logo ficaria boa.

Vovó Carmen também poderia colocar rodelas de batata em minha testa e prendê-las com um lenço.
E ficava ali, sentada junto a mim, até que tudo estivesse bem.

Eu as amava muito. Eram grande esteio em minha vida.

Suely Domingues Canero.






domingo, 25 de novembro de 2018

Tio Maximino


Soa a marcha nupcial e Linda entra na igreja pelas mãos de Maximino, mãos que nunca lhe fizeram um carinho, porém ninguém melhor que o tio para conduzi-la ao altar.

Caminham pela nave a passos lentos. Tio nervoso e noiva calma. Quanto demoraria o percurso entre a porta de entrada e o altar? Continuam em câmera lenta, ao encontro do noivo.

Linda já não ouve a música do coro, do violino, do órgão; ouve somente a respiração nervosa de seu condutor, a mesma respiração que sentira aos sete anos quando o tio a levara de bicicleta, de Santo Cristo a São Cristóvão, para um passeio à Quinta da Boa Vista.

O tio pedalava ofegante do esforço. Ida e volta. E era maior a dificuldade de Maximino que tem uma perna mais curta devido à meningite que tivera em criança.

Tio Maximino não era de abraços e beijos, mas era quem Linda, menina, todos os dias, esperava chegar do trabalho para ganhar 10 tostões "pra comprar coca-fina", uma cocadinha com gosto de água sanitária que Linda adorava. Quando via de longe a sobrinha correr a seu encontro abria largo sorriso

Linda caminha leve pela nave. Neste momento os flashes de sua memória confundem-se com os das câmeras fotográficas.

Agora via o tio chegando com uma enorme caixa que colocou em seus braços, sem nada dizer. Ao abrir a caixa, um sorriso iluminou-lhe o rosto. Era uma linda boneca de louça, vestido cor de rosa, cabelos loiros em cachos.

Os pensamentos avançaram para seus dezoito anos quando uma bicicleta foi mais um presente inesperado. Era o jeito de declarar seu amor pela sobrinha. E Linda se sente agora pedalando pelas ruas de paralelepípedos.

Assim era ele. Fazia o bem, estava sempre presente, sem alardes.

E agora está ali, emocionado, atravessando o longo tapete vermelho, honrando o falecido irmão mais velho, conduzindo a sobrinha amada ao altar.

Antes de soltar seu braço, Linda olha agradecida para este homem que sempre lhe dedicou tanto amor e, só agora, percebe quão importante ele é em sua vida.

Suely Domingues Canero

sábado, 10 de novembro de 2018

Embriagado de Amor


Uma alma vaga sombria
Pelas praias de Cabo Frio.
De quiosque em quiosque,
Um trago.

E bebe só por pirraça
À mulher que, bem sabia,
Jogava ao lixo as cartas
Que a sonhar lhe fazia.

A saudade lhe doía
E em seu peito não cabia
Tanto amor que nunca passa
Que lhe dói e lhe corrói
E lhe consola a cachaça.

A onda traz a espuma
A água gela seus pés
Olha as mulheres da praia
Mas não encontrando aquela
Que lhe traz tanto sofrer
Pede ao garçom outra dose
Para a ingrata esquecer.